quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Os Dias

Após todo aquele turbilhão de ideias que tinha durado toda a semana, pousou o comprimido na mesa e ficou absorto na transparência da água que entretanto tinha deitado no copo. António tinha decidido pôr fim à sua existência, tinha decidido passar para o lado de lá. Com a perfeita consciência que não era o mais infeliz dos mortais, achou que a sua vida simplesmente deixara de existir. Os caminhos que escolheu seguir deixaram-no num beco sem saída. E ele, lentamente, desaparecia.

Naqueles instantes em que via as ténues ondas no copo que aguardavam tensas o comprimido pousado, António sentiu uma inesperada paz a passar por cima da inquietação. “Decidir por fim à vida é o último de todos os pensamentos falhados” pensou. Na certeza de ter falhado na vida, julgou não falhar na morte.

Mas enganou-se. O comprimido não se revelou tão letal quanto isso. Ao invés da morte fulminante e indolor, António teve uma dores agudas no estômago, e, no meio da agonia, no limbo entre o cá e lá, ligou para as emergências para que lhe acabassem com a dor, ou com ele.

Recuperou a consciência no hospital. Antes, em breves momentos tinham passado pelos seus olhos a azáfama das enfermeiras e lágrimas de um rosto conhecido. Mas só mais tarde reparou que não morrera e apercebeu-se onde estava. Com as horas intermináveis do relógio e um silêncio interrompido por gemidos longínquos, chegou à conclusão que a única coisa que tinha era aquilo: a capacidade de estar acordado e a certeza de que o tempo é algo renovado num contínuo infinito. Tudo o quanto existe é imprevisibilidade.

E a sua vida continuou assim.

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